Advancing Sexual and Reproductive Health and Rights
 

EXECUTIVE SUMMARY

Rumo a um Novo Mundo: A vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens


January 1998

Sumário executivo

Pontos Principais

• Em quase todo o mundo, a maioria das mulheres torna-se sexualmente ativa na adolescência. Do ponto de vista numérico, esse contingente pode chegar a cerca de 50% na América Latina e no Caribe, alcançar a 75% em grande parte dos países desenvolvidos e ultrapassar 90% em muitos países da África sub-Saariana.

• Em algumas sociedades, as mulheres começam sua vida sexual na adolescência, pois espera-se que se casem e comecem a procriar cedo. Em outras, o casamento normalmente ocorre mais tarde, mas é comum o início da atividade sexual antes do casamento. Sem dúvida, algumas sociedades encontram-se em transição de uma norma social para a outra.

• Independentemente da norma social que influencie as jovens, iniciar a atividade sexual na adolescência acarreta certos riscos. Por exemplo, as mulheres que se casam cedo muitas vezes têm pouca voz nas decisões sobre procriação e limitadas oportunidades de educação e de desenvolvimento de aptidões para o trabalho. As mulheres solteiras que engravidam podem ter que decidir se fazem um aborto, ou tentam criar sozinhas seus filhos. Tanto as mulheres casadas como as solteiras são vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis e aquelas que têm filhos muito cedo, ou com freqüência, correm o risco de prejudicar sua saúde.

Os adolescentes de hoje, o maior contingente entre 10 a 19 anos de idade da história, vêm chegando à idade adulta num mundo bem diferente daquele em que cresceram seus pais. Embora o ritmo das mudanças varie de uma região do mundo para outra e até mesmo na mesma região, a sociedade se transforma ampla e rapidamente, criando uma série vertiginosa de novas possibilidades e de novos desafios para a juventude.

Melhores meios de transporte e comunicação expõem os adolescentes, mesmo jovens de áreas remotas, a pessoas de diferentes valores e tradições, enquanto um mundo cada vez mais urbano e industrializado acena com o fascínio do progresso e de novas oportunidades. Mas, sem educação e treinamento adequados, os jovens serão incapazes de atender às exigências do trabalho moderno e, sem a orientação dos pais e de líderes da comunidade e do governo, os adolescentes poderão estar mal equipados para avaliar os desdobramentos de suas decisões.

Entretanto, nos países em desenvolvimento, onde a pobreza predomina, algumas famílias podem desistir da educação dos filhos se o trabalho destes for necessário para a manutenção da casa. Na maioria dos países, 70% a 100% das crianças são matriculadas na escola primária, mas o número de anos de escolaridade que os jovens recebem é altamente variável. Por exemplo, enquanto 80% das mulheres jovens em alguns países em desenvolvimento recebem educação básica de pelo menos sete anos, nas regiões da África sub-Saariana essa porcentagem cai para 25%, podendo ser até menor.

Os governos pretendem tornar a educação básica amplamente disponível. Por conseguinte, as mulheres jovens de virtualmente todos os países, provavelmente receberão mais educação básica do que suas mães e, no mundo em desenvolvimento, esse diferencial por idade pode ser considerável. Por exemplo, no Sudão, enquanto 46% das jovens, entre 15 a 19 anos de idade, tiveram sete ou mais anos de escolaridade, apenas 5% das mulheres de 40 a 44 anos têm esse mesmo tempo de estudo. Entretanto, as disparidades, principalmente no que se refere aos aspectos sócio-econômicos e habitacionais persistem. Em muitos países em desenvolvimento, é duas a três vezes mais provável que as mulheres jovens urbanas recebam educação básica, comparadas às mulheres rurais.

Gráfico 1: A proporção de mulheres que tiveram seu primogênito até os 18 anos de idade, varia de 1% no Japão a 53% em Níger.

Embora alguns dos problemas enfrentados pelos adolescentes sejam os mesmos para todos os jovens, o período entre 13 a 19 anos é especialmente revelador para as adolescentes. Enquanto algumas jovens entre 10 a 19 anos apenas começam a experimentar as mudanças que advêm da puberdade, muitas delas iniciam suas vidas sexuais ou se casam. Anualmente, cerca de 14 milhões de mulheres entre 15 a 19 anos de idade se tornam mães. A maternidade entre adolescentes é mais comum nos países em desenvolvimento, onde muitas vezes cerca de 25% a 50% de jovens tiveram seu primogênito antes de completarem 18 anos de idade (Gráfico 1). Em contraste, nos países desenvolvidos e em pequeno número de países em desenvolvimento, menos de uma entre 10 jovens têm filhos precocemente.

O casamento precoce e especialmente a gravidez, podem exercer impacto profundo e duradouro no bem-estar e educação da mulher, e em sua capacidade de contribuir para a comunidade. Até agora, complexos fatores físicos, familiares e culturais, muitas vezes mal interpretados, determinam quem casa e quando casa; quem inicia atividade sexual antes do casamento; quem engravida durante a adolescência; e quem pode ter filhos fora do casamento. Os dados disponíveis demonstram que, embora as necessidades e experiências dos adolescentes variem em todo o mundo, há semelhanças que cruzam fronteiras nacionais e regionais.

Variam o início da vida sexual e do casamento

O casamento marca importante transição na vida de um indivíduo, e o momento para esse evento pode exercer impacto dramático no futuro de um jovem. Enquanto em muitas sociedades a primeira experiência sexual é provavelmente com o marido, em outras, o início da atividade sexual não está estritamente vinculado ao casamento. As diferentes expectativas quanto às relações e ao comportamento sexual, e a maneira de uma sociedade se adaptar a essas mudanças, podem determinar um profundo impacto nos jovens, em suas famílias e na sociedade como um todo.

Pelo menos 50% das mulheres jovens em muitos países da África sub-Saariana, iniciam sua primeira união antes dos 18 anos de idade, seja em casamento formal sancionado pela religião ou pela lei, seja em união de co-habitação (que pode ou não levar ao casamento formal), embora não mais que uma entre sete mulheres jovens o faça em alguns países da região. Na América Latina e no Caribe, 20% a 40% das adolescentes iniciam uma união, ao passo que no norte da África e no Oriente Médio, a proporção é de 30% ou menos. Em toda a Ásia, a probabilidade de casamento precoce é muito variável; 73% das mulheres de Bangladesh iniciam um casamento até 18 anos de idade, enquanto nas Filipinas e no Sri Lanka, essa porcentagem caia para 14%, e na China, apenas 5% das mulheres casam precocemente. Nos países desenvolvidos é improvável que as mulheres se casem antes dos 18 anos de idade; 10% a 11% o fazem na França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, embora apenas 3% a 4% se casem tão jovens na Alemanha e na Polônia.

Coleta de dados

Se os encarregados de políticas públicas e planejadores de programas devem tomar decisões fundamentadas sobre as necessidades educacionais, econômicas e de saúde das populações, é necessário que prevejam o número de pessoas que partilharão os recursos do país no futuro e se determinados grupos populacionais tenderão a crescer ou decrescer. Para isso, eles devem medir os padrões de comportamento da população. Por conseguinte, a maioria dos países recorre a censos ou pesquisas de amostra em larga escala para a coleta de informações sobre a saúde e o comportamento das mulheres, e em certa medida também dos homens, no que diz respeito à reprodução e à fecundidade.

Essa coleta de dados é a base do relatório publicado por The Alan Guttmacher Institute, Into a New World: Young Women's Sexual and Reproductive Lives, no qual este sumário executivo se inspira. O relatório consolida dados de 53 países, 47 do mundo em desenvolvimento e seis do mundo desenvolvido, que representam cerca de 75% da população mundial.

Em 46 dos países a principal fonte dos dados foram as Pesquisas Demográficas e de Saúde, um programa da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, que ajuda os países em desenvolvimento a coligir os dados de que necessitam. Nos demais países - China e seis países industriais - dispõem-se de dados comparativos de pesquisas governamentais.

O casamento precoce é menos comum do que o foi na geração anterior, embora hajam consideráveis variações de uma região para outra e até mesmo numa mesma região. Por exemplo, na África sub-Saariana, a proporção de mulheres casadas aos 18 anos de idade sofreu pequena variação em Gana (39% das mulheres entre 40 a 44 anos de idade versus 38% das mulheres entre 20 a 24 anos de idade) e na Costa do Marfim (49% versus 44%), mas reduziu-se acentuadamente no Quênia (47% versus 28%). Em contraste com essas proporções, verificaram-se declínios substanciais em toda a Ásia, enquanto as taxas de casamento precoce permaneceram essencialmente estáveis na América Latina e no Caribe.

Em todo o mundo, o momento para a primeira união está fortemente relacionado ao nível educacional da mulher. Em grande parte da África sub-Saariana, da América Latina e do Caribe, as taxas de casamento precoce entre mulheres de nível educacional inferior ao básico são aproximadamente o triplo das entre elas que possuem pelo menos sete anos de escolaridade (Quadro 1). Também se observam grandes diferenciais nos países desenvolvidos, segundo o nível educacional, embora nestes países as taxas de casamento precoce sejam relativamente baixas.

Quadro 1: É comum entre as mulheres de países em desenvolvimento iniciar atividade sexual e maternidade na adolescência.
País e ano da pesquisa % de mulheres de 20 a 24 anos casadas ou em união antes dos 18 anos de idade % de mulheres que tiveram filhos antes dos 20 anos2 % de mulheres casadas entre 15-19 anos
que não desejam ter filhos cedo
% de mulheres entre 15-19 anos de idade que necessitam de proteção contraceptiva3
Menos de sete anos de
escolaridade1
Sete ou mais anos de
escolaridade1
20-24 anos de idade 40-44 anos de idade
África sub-Saariana
Botsuana, 1988 15 8 55 50 62 29
Burkina Faso, 1992-1993 65 25 62 58 66 16
Burundi, 1987 18 9 27 39 75 3
Camarões, 1991 79 26 67 64 64 32
Costa do Marfim, 1994 48 21 63 57 62 35
Gana,1993 51 26 49 50 83 32
Libéria, 1986 57 30 64 59 63 36
Madagascar, 1992 45 14 53 60 59 27
Malaui, 1992 63 25 63 56 73 nd
Mali, 1987 80 61 67 62 68 28
Namíbia, 1992 21 5 42 38 28 19
Níger, 1992 87 12 75 63 57 21
Nigéria, 1990 69 14 54 49 62 22
Quênia, 1993 52 18 52 59 66 22
Rep. Centro-Afr., 1994-1995 60 42 61 59 59 23
Ruanda, 1992 21 4 25 36 74 6
Senegal, 1992-1993 54 6 52 54 64 13
Tanzânia, 1991-1992 58 28 57 65 64 24
Togo, 1988 50 16 56 59 74 33
Uganda, 1995 62 31 66 65 67 22
Zâmbia, 1992 60 31 61 68 68 30
Zimbábue,1994 69 24 47 54 70 8
Norte da África e Oriente Médio
Egito, 1992 49 6 29 40 64 4
Iêmen, 1991-1992 54 17 41 35 14 2
Marrocos, 1992 23 4 19 39 56 2
Sudão, 1989-1990 41 9 26 61 59 4
Tunísia, 1988 12 4 13 36 70 2
Ásia
Bangladesh, 1993-1994 82 40 66 85 71 18
China, 1992 8 2 14 22 73 nd
Filipinas, 1993 30 10 21 26 81 4
Índia, 1992-1993 66 21 49 58 65 15
Indonésia, 1994 49 10 33 51 70 3
Paquistão, 1990-1991 38 7 31 38 57 8
Sri Lanka, 1987 nd nd 16 31 76 3
Tailândia, 1987 25 8 24 28 76 4
Turquia, 1993 30 6 25 42 71 4
América Latina e Caribe
Bolívia, 1993-1994 34 18 38 38 91 12
Brasil, 1996 34 14 32 29 88 12
Colômbia, 1995 42 15 36 34 83 11
El Salvador, 1985 48 16 nd nd 82 10
Equador, 1987 42 15 35 39 80 8
Guatemala, 1987 48 10 50 48 79 12
México, 1987 46 13 35 41 63 5
Paraguai, 1990 33 13 37 34 74 11
Peru, 1991-1992 43 9 27 36 90 10
República Dominicana, 1991 64 18 33 52 66 12
Trinidad e Tobago, 1987 42 33 30 40 87 11
Pays industrialisés
Alemanha, 1992 3 3 6 13 4 87 5 nd
Estados Unidos, 1995 41 6 22 24 70 12
França, 1994 29 7 6 13 18 5 nd
Grã-Bretanha, 1991 27 6 15 16 nd nd
Japão, 1992 6 0 3 2 77 6 nd
Polônia, 1991 12 3 14 11 nd nd
1. Dados baseados em 10 ou mais anos de escolaridade para os países desenvolvidos, com exceção da Grã-Bretanha (11 ou mais) e os Estados Unidos (12 ou mais). 2. No norte da África, Oriente Médio e Ásia, supõe-se que as mulheres que não se casaram também não tenham tido filhos. 3. A expressão "que necessitam de proteção" refere-se às mulheres sexualmente ativas que não querem ter filhos cedo e que não usam métodos contraceptivos modernos: pílula, diafragma, camisinha, DIU, espermicidas, esterilização, injeções e implantes. Só há informação sobre a intenção de procriação para as mulheres casadas; supõe-se que as mulheres solteiras não queiram ter filhos cedo. Considera-se que as mulheres que estavam grávidas, quando da pesquisa, sem que o desejassem, precisam de proteção contraceptiva. 4. Refere-se às mulheres entre 35-39 anos de idade. 5. Refere-se às mulheres entre 20-24 anos de idade. 6. Refere-se às mulheres entre 18-19 anos de idade; porcentagem baseada em 22 mulheres. nd = não disponível.

As diferentes culturas, em todo o mundo, adotam diferentes atitudes quanto à atividade sexual entre pessoas não unidas pelo casamento. No norte da África, no Oriente Médio e na maioria dos países asiáticos, espera-se que as mulheres jovens se abstenham de relações sexuais até que se casem, e há evidência de que a maioria delas cumpre essa norma. Entretanto, em grande parte da África sub-Saariana, é comum que adolescentes solteiras tenham relações sexuais que, com freqüência, conduzem a uniões formais; nos Estados Unidos e em alguns países europeus, a atividade sexual entre adolescentes também é comum, mas pode não levar ao casamento. Muitas das sociedades que restringem ou condenam a atividade sexual de mulheres solteiras, no entanto, toleram e até mesmo incentivam tal comportamento nos homens solteiros. Por conseguinte, a probabilidade de que os homens iniciem sua atividade sexual antes do casamento é maior e eles a começam ainda mais cedo que as mulheres.

Adiar o casamento para depois da adolescência apresenta vantagens para as mulheres, mas também as torna vulneráveis a certos riscos. A mulher que adia o casamento pode ser capaz de prosseguir sua educação, pode mais acertadamente decidir quando casar-se e com quem, e pode exercer maior influência sobre o que possa ocorrer com seu casamento e sua família. Entretanto, é também mais provável que se envolva em relações sexuais, o que implica o risco de gravidez indesejada e de contágio de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Ante uma gravidez indesejada, a mulher solteira tem que se decidir entre ter um filho fora do casamento ou submeter-se ao aborto; em países em que o aborto induzido é ilegal ou não é facilmente acessível, muitas mulheres recorrem a procedimentos clandestinos. As mulheres sexualmente ativas, tanto casadas quanto solteiras, podem contrair DSTs, mas é maior o risco para as solteiras, pois é mais provável que venham a ter vários parceiros.

A maternidade freqüentemente começa em idade precoce

Em algumas sociedades, as mulheres são incentivadas a começar a constituir família ainda adolescentes. Proporções consideravelmente grandes de mulheres, na maioria dos países da África sub-Saariana, têm seu primeiro filho antes dos 18 anos de idade (por exemplo, cerca de 20% na Namíbia e 50% em Níger); menos de um quinto o fazem na maioria dos países asiáticos (com exceção da Índia e de Bangladesh, onde as proporções são de cerca de 30% e 50%, respectivamente). Na América Latina e no Caribe, 12% a 28% das mulheres têm filhos entre os 15 a 17 anos de idade; nos países do norte da África e do Oriente Médio, 3% a 27% têm seu primeiro filho em idade precoce.

A probabilidade das mulheres com pelo menos educação básica constituírem família antes dos 18 anos de idade é de cerca de 50% da de mulheres que tiveram menos escolaridade; nos países do norte da África e do Oriente Médio, as proporções de adolescentes que se tornam mães são menores, mas a diferença quanto ao nível educacional é maior. A educação também está associada às diferenças no que se refere à gravidez de adolescentes nos países desenvolvidos; nos Estados Unidos, a probabilidade das adolescentes com menos de 12 anos de escolaridade terem filhos antes dos 18 anos de idade é cerca de seis vezes maior que a de adolescentes com escolaridade maior.

Embora a maioria das adolescentes que tenham filho sejam casadas, uma grande proporção delas não o são. Em muitas partes da África sub-Saariana, 30% dos partos de mulheres entre 15 a 19 anos de idade ocorre entre adolescentes não casadas; a proporção é bem baixa (4% a 6%) em Burkina Faso, Mali, Níger e Nigéria, mas excede 75% em Botsuana e Namíbia. Na América Latina e no Caribe, 12% a 25% dos partos de adolescentes são de mulheres solteiras. A fecundidade fora do casamento é uma tendência crescente no mundo desenvolvido; na Alemanha, Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, mais da metade das adolescentes que têm filhos são solteiras.

Pesquisas indicam que a proporção de mães adolescentes que não planejaram a gravidez varia amplamente de uma região para outra e numa mesma região. Na América Latina e no Caribe, 25% a 50% das mães jovens declaram não ter planejado a gravidez; nos países do norte da África e do Oriente Médio, a proporção varia de cerca de 15% a 30%. Cerca de 10% a 16% dos partos de adolescentes na Índia, Indonésia e Paquistão não são planejados, ao passo que nos demais países asiáticos a proporção varia de 20% a 45%. A variação é ainda maior na África sub-Saariana - de 11% a 13% em Níger e Nigéria, a 50% ou mais em Botsuana, Gana, Namíbia, Quênia e Zimbabwe. Grande proporção de partos de adolescentes nos países desenvolvidos também não são planejados - por exemplo, 66% nos Estados Unidos.

Como o acesso à educação vem aumentado e os benefícios do adiamento da gravidez se tornaram mais amplamente difundidos, a fecundidade de adolescentes reduziu-se em vários países (Quadro 1). A probabilidade de mulheres de 20 a 24 anos de idade, em algumas regiões da Ásia, terem tido seu primeiro filho na adolescência é 20% menor que a de mulheres entre 40 a 44 anos de idade; em outras regiões, as probabilidades são 33% a 50% mais baixas. A fecundidade das adolescentes reduziu-se em cerca de 25% a 50% nos países do norte da África e do Oriente Médio.

Em contraste com esse fenômeno, ocorreram menores reduções nos países da África sub-Saariana, sendo provável que, em alguns deles, mais adolescentes sejam mães que na geração anterior. Na América Latina e no Caribe, variaram os níveis de maternidade de adolescentes. Por exemplo, houve um declínio de 37% na República Dominicana, não houve variação na Bolívia, e registrou-se um pequeno aumento no Brasil.

O adiamento da maternidade beneficia as mulheres jovens, assegurando-lhes mais tempo para que adquiram educação e desenvolvam aptidões que realcem sua capacidade de cuidar da família e de concorrer no mercado de trabalho. Esse adiamento também pode exercer impacto dramático na taxa de crescimento demográfico global e nacional. Em muitos países em desenvolvimento, a mulher que tem o primeiro filho antes dos 18 anos de idade, terá em média, sete filhos. O adiamento da primeira gravidez, para depois dos 20 anos de idade, reduz o número médio de partos a cinco.

O uso de métodos contraceptivos pelas adolescentes é em geral baixo

Embora algumas jovens tenham a ânsia de conceber, a maioria delas não deseja ter filhos tão cedo; mesmo entre as que são casadas, pelo menos 66%, na maioria dos países, querem adiar a maternidade ou uma segunda gestação (Quadro 1). Muitos outros fatores, além do desejo de procriação da mulher, determinam se ela usará ou não métodos anticoncepcionais: sua situação conjugal, as expectativas da família e as normas da comunidade, e seu acesso a serviços de contracepção e de saúde.

Por conseguinte, não mais de 20% das adolescentes casadas, na maioria dos países sub-Saarianos, usam um método contraceptivo, apesar de 60% ou mais declarem não desejarem ter filhos tão cedo. A utilização de métodos contraceptivos é igualmente pequena nos países do norte da África e do Oriente Médio, mas variam consideravelmente na Ásia: menos de 5% das adolescentes casadas na Índia e Paquistão usam métodos contraceptivos, ao passo que 40% o fazem na Indonésia e na Tailândia. Com poucas exceções, os países da América Latina e do Caribe registram taxas de uso de métodos contraceptivos mais altas, variando de 30% a 53%.

As adolescentes solteiras sexualmente ativas na África sub-Saariana apresentam uma probabilidade muito maior do que as casadas, da mesma faixa etária, de usarem métodos contraceptivos; têm a mesma probabilidade de uso do que as casadas da mesma idade na América Latina e nos Estados Unidos. Das cerca de 260 milhões de mulheres entre 15 a 19 anos de idade em todo o mundo, casadas e solteiras, cerca de 11% (29 milhões) são sexualmente ativas e não desejam engravidar, mas não usam nenhum método contraceptivo moderno (pílula, injeções, DIU, implante, esterilização, diafragma, camisinha ou espermicidas). A proporção de mulheres que necessitam de proteção anticoncepcional, é especialmente alta na África sub-Saariana (por exemplo, cerca de 33% de todas as mulheres adolescentes da Costa do Marfim e de Gana) e é também consideravelmente alta em Bangladesh e na Índia (ligeiramente menor que 20%). Cerca de 10% das mulheres em grande parte da América Latina e do Caribe, correm o risco de gravidez indesejada por não usarem nenhum método anticoncepcional moderno ou pelo uso de contraceptivos tradicionais.

As adolescentes que desejam usar métodos contraceptivos encontram muitos obstáculos ao procurarem tal método. O nível de conhecimento dos métodos modernos, por exemplo, varia entre as mulheres adolescentes dos países em desenvolvimento e é particularmente baixo na África sub-Saariana - menos da metade em Burkina Faso, Burundi, Madagascar, Mali, Níger, Nigéria e Tanzânia. A familiaridade com a camisinha é menor - no máximo 33% das mulheres jovens em muitos países conhecem esse método.

As adolescentes que estão a par dos métodos de contracepção podem não saber onde obtê-los. É mais difícil consegui-los na zona rural do que na urbana. Além disso, em alguns países em que a atividade sexual entre adolescentes solteiros não é aceita, o acesso das mulheres jovens aos serviços que oferecem métodos contraceptivos não é permitido.

Mesmo quando as mulheres jovens estão familiarizadas com métodos modernos e têm acesso aos mesmos, podem não saber como usá-los adequadamente. Em parte porque as jovens muitas vezes carecem de conhecimento sobre o seu uso ou habilidade para utilizá-los, estas adolescentes apresentam uma maior probabilidade de engravidarem do que as mulheres mais velhas, no primeiro ano depois de terem começado a usar um método.

Apesar de ser baixo o nível de uso de métodos contraceptivos, ainda assim hoje o uso de tais métodos modernos é maior do que o foi entre as adolescentes da década de 70. O aumento do uso é mais evidente entre as adolescentes casadas em vários países asiáticos: a prevalência duplicou ou triplicou na Indonésia, Filipinas e Tailândia, e cresceu 10 vezes em Bangladesh (Quadro 2).

Quadro 2: Aumenta o uso de contraceptivos modernos entre as mulheres adolescentes casadas.
País % de mulheres casadas de 15 a 19 anos que usam um método moderno
Década de 70 Década de 90
Bangladesh 2 20
Bolívia 2* 10
Brasil 46* 46
Colômbia 21 34
Egito 6* 13
Estados Unido† 59 65
Filipinas 5 10
Gana 2* 7
Indonésia 11 32
México 11 24
Quênia 1 5
Tailândia 15 40
Zimbábue 28* 30
*Meados ou fins da década de 80. †Porcentagem de todas as mulheres de 15 a 19 anos sexualmente ativas; o período inicial é 1982. ‡1987.

Os métodos contraceptivos modernos são os preferidos da maioria das adolescentes casadas que acataram o planejamento familiar nos países do norte da África, do Oriente Médio e da Ásia. Os métodos tradicionais - em particular, abstinência periódica - prevalecem na África sub-Saariana e são usados por grande número de adolescentes da América Latina e do Caribe.

Em nenhum país em desenvolvimento não mais que 8% das adolescentes casadas usam camisinha, o único método contraceptivo que também é efetivo na prevenção da disseminação do HIV e das DSTs. Em algumas áreas, porém, se começa a fazer caso das mensagens sobre o papel da camisinha na prevenção de doenças. Em vários países da América Latina e nos Estados Unidos, as adolescentes solteiras sexualmente ativas são duas vezes mais propensas ao uso da camisinha do que as adolescentes casadas.

A atividade sexual pode acarretar riscos à saúde

O parto - especialmente do primeiro filho - implica riscos potenciais à saúde das mulheres. Para a mulher com menos de 17 anos de idade, que não atingiu a maturidade física, os riscos são maiores. As adolescentes, especialmente as que ainda não fizeram 15 anos, são mais propensas do que as mulheres maduras a experimentarem parto prematuro, aborto e parto de natimorto. Estas mesmas adolescentes são ainda quatro vezes mais propensas do que as mulheres de mais de 20 anos de idade a morrerem de causas relacionadas à gravidez. Ademais, os filhos dessas jovens mães correm risco maior de deficiência de peso no nascimento e de morte no primeiro ano de vida, se comparados aos bebês nascidos de mulheres adultas.

Em todo o mundo, algumas adolescentes grávidas deixam de receber cuidados pré-natais; isso acontece com cerca de 50% das adolescentes grávidas em Bangladesh, Bolívia e Egito. Mesmo em populações abastadas, muitas adolescentes não recebem cuidados pré-natais, ou procuram tais serviços somente no final da gravidez.

Outra ameaça à saúde da mulher jovem reside na decisão de pôr termo a uma gravidez não desejada em países em que o aborto é ilegal ou de difícil acesso. Em tais situações, as adolescentes podem recorrer a serviços clandestinos, onde muitas vezes o atendimento não é qualificado e os atendentes trabalham em condições anti-higiênicas.

Em vários países da África sub-Saariana, as adolescentes representam cerca de 25% a 33% das mulheres que sofrem complicações relacionadas ao aborto; no Quênia e na Nigéria, as adolescentes representam 50% das mulheres com as mais graves complicações advindas do aborto. Mesmo onde o aborto é praticado legalmente, as mulheres jovens podem deparar-se com maior risco de complicações se demorarem a recorrer a esse procedimento, como ocorre com algumas que não reconhecem os primeiros sinais de gravidez ou negam que estejam grávidas, ou ainda se não disporem dos recursos financeiros para pagamento de um aborto.

As infecções do trato reprodutivo também exercem grande impacto na saúde e fertilidade da mulher. Muitas dessas infecções se desenvolvem quando a mulher tem muitos filhos ou pratica aborto em condições não-assépticas; outras são contraídas mediante relação sexual com um parceiro infectado. Anualmente, é considerável a proporção de mulheres e homens entre 15 a 49 anos de idade que contraem DSTs - de 11% a 25% na maioria das regiões em desenvolvimento, porém menos de 10% nos países desenvolvidos e em alguns países em desenvolvimento. As mulheres jovens são especialmente suscetíveis a essas doenças, porque têm menos anticorpos protetores do que as mulheres de mais idade, e a imaturidade do colo do útero aumenta a probabilidade de que a exposição a um agente infeccioso resulte em transmissão da doença.

Em sociedades em que as mulheres exercem pouco poder de decisão sobre suas vidas, uma adolescente que tenha medo de ser infectada por seu parceiro pode ser incapaz de recusar suas investidas sexuais ou incapaz de insistir para que ele use preservativos. E, embora as mulheres solteiras corram maior risco do que as mulheres casadas de contraírem DSTs, também as casadas podem correr esse risco, se seus maridos tiverem tido muitos relacionamentos sexuais antes do casamento ou se continuarem a ter mais de uma parceira sexual.

As DSTs nas mulheres muitas vezes não apresentam sintomas iniciais; por conseguinte, as mulheres podem não ter consciência de que estão infectadas e, assim, podem deixar de procurar tratamento. As DSTs não tratadas podem ter efeitos devastadores sobre a saúde, inclusive a diminuição da fertilidade, dores pélvicas crônicas, câncer cervical e efeitos adversos em bebês de mulheres que estavam infectadas durante a gravidez.

Além disso, metade das infecções de HIV ocorrem entre pessoas de menos de 25 anos de idade. Em alguns países sub-Saarianos, muitas jovens grávidas apresentaram resultados positivos em testes do vírus HIV - por exemplo, 20% a 27% em algumas áreas de Botsuana, Nigéria e Ruanda.

Certas práticas culturais entre os adolescentes causam riscos à saúde reprodutiva. Em algumas sociedades, muitas jovens sofrem mutilação genital, tendo parte da genitália ou toda ela removida. Podem ocorrer complicações decorrentes da própria incisão, e os efeitos perduráveis podem consistir em dores crônicas durante o ato sexual, infecções pélvicas recorrentes e parto difícil. Tradicionalmente, em muitos países da Ásia, da América Latina e do Caribe, os homens vivem suas primeiras experiências sexuais com uma prostituta.

Finalmente, em todo o mundo, as jovens são vítimas de abuso sexual, incesto e estupro. Em muitas regiões, os jovens - especialmente os pobres e sem teto, que carecem de qualificações para concorrerem a emprego em que não sejam explorados - são vítimas de exploração sexual com fins comerciais.

As mulheres jovens precisam de ajuda

Os adolescentes de hoje são a geração de pais, trabalhadores e líderes de amanhã. Para que desempenhem esses papéis da melhor maneira possível, precisam da orientação e apoio da família e da comunidade e da atenção de um governo comprometido com seu desenvolvimento. A modernização econômica, a urbanização e as comunicações de massa mudam as expectativas e o comportamento dos adolescentes, fazendo com que sua adaptação aos novos meios tenda a ser inconveniente e às vezes penosa. Mas a adaptação é inevitável e inelutável.

A maioria dos países reconhece a necessidade e o valor da educação das mulheres jovens. As mulheres com pelo menos educação primária, adiam o casamento e a procriação por um ano e meio, diferentemente das que não têm escolaridade; as que atingiram a educação secundária os adiam por mais tempo. A educação também contribui para a saúde dos filhos e da família, e facilita o uso de informações e serviços para a mulher. Os governos e outras instituições sociais devem, por conseguinte, encontrar novos meios que possibilitem que as famílias matriculem as meninas na escola e estimular as mulheres jovens a continuarem seus estudos e concluir sua educação básica.

Poucos são os países desenvolvidos e em desenvolvimento que dispensaram adequada atenção às necessidades particulares de saúde reprodutiva das mulheres adolescentes - em alguns casos pela falta de recursos, em outros por medo de suscitar controvérsia. A extensão e a natureza dessas necessidades de saúde reprodutiva são individuais e dependem da idade da mulher e das circunstâncias (Quadro 3). E, em virtude de variarem os padrões de união e comportamento sexual entre as diferentes regiões do mundo (Quadro 4) ou entre grupos culturais, também varia a proporção de mulheres jovens com necessidades específicas. É, porém, universal a necessidade de informações corretas e de educação - tanto das meninas e mulheres jovens quanto dos meninos e rapazes que se tornarão seus parceiros sexuais e maridos.

Quadro 3: Todas as jovens, independentemente de serem sexualmente ativas, de estarem grávidas ou de serem mães, necessitam de serviços de saúde reprodutiva.
Atividade sexual e condição de grávida ou de mãe Serviços necessários durante a adolescência
Educação sexual Serviços contraceptivos Diagnósticoe tratamento de DSTs Cuidados pré-natais Serviço Programas para estudantes de parto grávidas ou mães
Não sexualmente ativa X




Primeiro relacionamento sexual antes do casamento X X X


Primeiras relaçõe sexuais no casamento X X X


Grávida ou mãe X X X X X X


Quadro 4: Os padrões de casamento e comportamento sexual das jovens variam nas diferentes regiões do mundo.
% de mulheres que até os 20 anos de idade África sub-Saariana Ásia, Norte da África e Oriente Médio América Latina e Caribe Cinco países desenvolvidos*
Não sexualmente ativas 17 52 44 23
Iniciaram atividade sexual 83 56 77
Antes do casamento 38 28 67
Com casamento 45 48 28 10
Tiveram filho 55 32 34 17
*Alemanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Polônia. †Não se dispõe de informações nacionais comparáveis sobre a atividade sexual das mulheres solteiras em todos os países dessas regiões.

As crianças e jovens muitas vezes tomam conhecimento de assuntos sexuais pelos colegas, irmãos, pais e pelos meios de comunicação, mas as informações recebidas são em geral limitadas e podem não ser corretas. A instrução formal, adequada à idade e características de cada jovem constitui importante fonte de informação sobre sexualidade, gravidez, procriação, anticoncepção e prevenção de DSTs. São comuns os currículos formalizados nos países desenvolvidos, onde é longa a duração da escolaridade. Mas são eles muito menos recorrentes nos países em desenvolvimento e, tipicamente, não são implementados nacionalmente; além disso, dada a curta duração da escolaridade básica em muitos países, e as altas taxas de desistência escolar entre adolescentes carentes, os programas educacionais comunitários são complemento necessário às iniciativas escolares.

Os programas de grande alcance de educação sexual, não só abrangem fatos biológicos, mas também proporcionam aos jovens informações práticas e competência no que se refere a encontros, relações sexuais e uso de contraceptivos. Embora os programas se deparem com oposição religiosa ou política, a maioria dos estudos mostra que eles não incitam à atividade sexual, mas sim estimulam o adiamento da primeira experiência sexual e, no caso de jovens sexualmente ativos, incentivam o uso de contraceptivos.

Os governos, juntamente com outras instituições e a mídia, têm um papel a desempenhar no melhoramento da possibilidade das mulheres se protegerem contra a gravidez não desejada e às DSTs. É preciso concentrar esforços especiais para educar e motivar os homens no sentido de que cooperem com suas parceiras sexuais, usando contraceptivos para prevenir a gravidez não desejada e preservativos para evitar a disseminação de doenças. Também é necessário que se disponha de serviços para o diagnóstico e tratamento das DSTs, bem como de informações sobre o risco de infecções. As adolescentes precisam ter acesso a uma série de serviços contraceptivos que respondam às suas necessidades específicas, inclusive sua situação conjugal, número de parceiros e intenções relativas à fecundidade.

Algumas jovens que engravidam sem que o queiram procuraram o aborto, esteja ele ou não legalmente disponível. Nos países em que o aborto é legal, os serviços devem ser acessíveis a todas as jovens independentemente da questão financeira ou geográfica. Onde não se dispõe do procedimento legalmente, muitas mulheres procurarão serviços clandestinos de aborto; se elas apresentarem complicações decorrentes do procedimento, deverão ter acesso a cuidados adequados pós-aborto, inclusive instruções sobre contracepção, de forma que possam evitar outra gravidez não desejada.

Em muitos países em desenvolvimento, os serviços destinados a gestantes e mães são inadequados. Entretanto, as adolescentes em particular devem ser informadas sobre a importância dos cuidados pré-natais, e os serviços devem estar ao alcance delas. Também necessitam de apoio social durante a gravidez e, depois do parto, precisam de apoio e assistência de saúde para si mesmas e para seus bebês. As mães adolescentes podem precisar de assistência na amamentação, recomendações sobre nutrição e informações sobre imunização. Muitas precisarão de conselhos e serviços anticoncepcionais que as ajudem a retardar a gravidez seguinte.

A privacidade e a confidencialidade são importantes aspectos da prestação de serviços às adolescentes, que podem se sentir constrangidas discutindo assuntos sexuais, ou podem temer a condenação de suas famílias ou comunidades. Os cuidados especificamente dispensados às adolescentes devem levar em conta o limitado acesso das mulheres jovens ao transporte e os seus, muitas vezes, parcos recursos financeiros. O tipo de acolhida recebido nesses serviços determinará em que medida a assistência será proveitosa para as jovens.

O futuro depende grandemente do bem-estar das adolescentes - de quão bem desempenham elas seus papéis de mães, de contribuintes da economia, de mestres da geração seguinte e de fonte de valor para suas comunidades e nações. À medida que reclamam seu lugar pleno e legítimo no mundo, as jovens deparam-se com dificuldades e desafios. Mas o desafio das comunidades e nações - de dar às jovens a ajuda de que necessitam e que merecem - é ainda maior.